Haja Amor – As Marias

Sei que já falei de muitas amigas, mas queria falar de uma última, a Maria.

A Maria era farmacêutica, casada com um economista que também era professor e tinha três filhas com ele. O marido da Maria era violento com ela e com as filhas com frequência. Uma noite Maria acordou com dor, havia levado um tiro nas costas e sabia que o marido era o autor do tiro. Maria ficou meses no hospital, passou por diversas cirurgias e ficou paraplégica.

O marido contou à polícia que ladrões entraram na casa da família e atiraram nela. Ela voltou pra casa e o marido tentou eletrocutá-la durante o banho.

Com uma autorização judicial Maria foi embora de casa com as filhas e iniciou a batalha pra ver o ex-marido condenado. Quase 10 anos após o crime ele ainda não havia sido preso e Maria iniciou, com o apoio de organizações de proteção aos direitos humanos, uma denuncia contra o Brasil na Organização dos Estados Americanos – OEA. As recomendações feitas pela OEA ao Brasil após este caso geraram a Lei nº 11.340, de 07/08/2006 que ficou popularmente conhecida pelo nome da minha amiga, Maria da Penha.

É importante saber que a violência doméstica nunca começa com a agressão física, antes dela vem uma série de agressões psicológicas graves.

Uma mulher que apanha do parceiro e continua com ele é uma mulher que acha que não tem mais nada a perder, que se sente incapaz, que acha que não é nada e que aquele parceiro faz um favor em aguentá-la.

Os fatores que levam mulheres a esse tipo de situação são diversos e grande parte deles está presente no dia a dia de todas nós e precisamos ter cuidado para não contribuir com a violência.

Sabe quando você chama aquela sua amiga de encalhada? Quando fala daquela parente que ficou pra titia? Você reforça uma mensagem de que mulheres sem um homem ao lado não tem valor e de que antes mal acompanhada do que só.  Quando você diz que “fulana” fica com o parceiro que bate nela porque gosta  de apanhar, ou que se apanhou é porque deu motivo você culpabiliza a vitima da agressão e não o agressor, você prende a pessoa àquela situação. Quando você pergunta pra sua amiga se o namorado deixa ela sair com as amigas você está reforçando uma ideia de posse, de que aquela mulher é um objeto que pertence àquele homem.

Ao procurar dados não é raro ouvirmos casos de mulheres que foram agredidas durante uma vida por seus parceiros, conseguiram se afastar e ao fim voltaram a viver com eles.

Um relacionamento abusivo é tóxico, ele mina qualquer traço de amor próprio da vida da vitima e faz com que ela acredite que não pode ser completa, ter sucesso, ser querida e ser feliz sem o abusador (mesmo sabendo, lá no fundo, que com ele também não é nada disso).

Os mesmos dados nos mostram também que mulheres morrem, todos os dias, como consequência desses relacionamentos.

violencia

Com a criação da Lei Maria da Penha teve início uma mudança na maneira como a sociedade encara essas agressões, infelizmente a mudança vem a passos de tartaruga.

É preciso desconstruir a ideia de que “em briga de marido e mulher ninguém mete a colher” e não ser omisso. Você pode e deve, a qualquer momento, denunciar aquele vizinho que você ouve bater na mulher à noite, pode denunciar aquele namorado da sua amiga que bate nela por causa da roupa, pode denunciar o parceiro daquela colega de trabalho que vive com marcas de “cair da escada” ou “bater na porta”.

Você pode tentar falar com essas mulheres sobre isso, pode oferecer todo o tipo de ajuda como acompanha-la a uma delegacia especializada para fazer a denuncia ou a um grupo de terapia com vítimas de violência. É muito importante mostrar pra essa mulher que ela não está sozinha.

A lei criou também alguns aparatos do Estado para lidar especificamente com estes casos como as delegacias da mulher e centros de atendimento a mulheres vítimas de violência, mas ainda assim o atendimento pode ser difícil.

As delegacias especializadas não abrem em determinados horários e por vezes a denuncia da violência tem que ser feita em uma delegacia comum. Vivemos numa sociedade machista e por vezes, a pessoa responsável por receber a denuncia tenta desencorajar a vítima afirmando que é uma briga de casal, que vai ficar tudo bem.

É preciso insistir, não desistir e ter em mente que o discurso quem diz que “uma denuncia dessas vai acabar com a vida dele” não sabe o estrago que o agressor já fez na vida da vítima. É preciso ter em mente que a segurança da vitima só será garantida quando o agressor for levado à justiça.

A ONU estima que a cada dez mulheres sete sofrerão violência física ou sexual ou ambas em algum momento da vida.

A cada hora cinco mulheres morrem no mundo vítimas de violência doméstica.

A cada hora uma mulher no Brasil morre em consequência deste tipo de violência.

Enquanto você tomava um café e lia este texto 2 ou 3 mulheres morreram, eram outras Marias, as que não tiveram o que aquela Maria teve.

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