8, 80 – Fazer Aniversário

Acordar mais um ano exatamente no dia que você nasceu. Nada tão especial assim pra ele que morava sozinho, só com um gato tão solitário quanto ele. Mas aquele aniversário amanheceu diferente, parecia até que o felino sabia da data e despertou com o dono com uma carinha diferente, de quem quer carinho. Até parecia que o bichinho revelava o humor e o sentimento do seu dono.

O dia começou. 56 na cabeça, uns cabelos brancos a mais e tanta conta pra pagar. Conta, dinheiro, trabalho. Foi tudo isso que o deixou solitário. Um café quente pra acompanhar esse cinquentão sozinho. Se olhou no reflexo da janela e brindou com si mesmo: Feliz Aniversário, seu velhote! E sorriu. Há quanto tempo não via os próprios dentes? Já judiados pelos anos acompanhados de cigarro, café e noites de uísque.

Tomou um banho pensando nos seus dentes e tentou calcular quanto tempo desperdiçou usando dentes só pra mastigar. Lembrou de todas as manhãs que chegou no escritório com a cara amarrada, já nervoso por tudo aquilo que não ia pra frente da forma que ele queria. Também lembrou de todas as vezes que aumentou a voz com a equipe, e se arrependeu. Se arrependeu de não sorrir e de não ser lá o velhote mais legal do pedaço.

O Facebook denunciou pra equipe inteira que era seu aniversário. Mas cara de Monalisa é uma coisa se aprende a fazer desde cedo na vida corporativa e nenhum parabéns foi entregue, nem à distância, nem de tchauzinho entre baias, quem dirá um abraço. Dia triste, como todos os outros. Era como se ele nem tivesse nascido, só morrido mais um pouco.

A noite chegou, choveu e esfriou pra ficar tudo mais melancolico. Passou no mercado e se deu de presente uma cerveja importada e seu petisco preferido, amendoim japonês. Foi pra casa com lágrimas nos olhos, se lembrando da infância e de como era bom ter festa de aniversário. Se lembrou de uma festa surpresa que ganhou, ainda quando namorava sua ex-esposa. Ele já há cinco anos separado, e há quinze sem festa de aniversário. Era um coração machucado pelo tempo.

Abriu a porta de casa, respirou fundo e engoliu o choro, como se o gato fosse revelar para alguém o bom homem que havia atrás daquele velho ranzinza. Acendeu a luz e, então, foi surpreendido por suas filhas e sua mãe cantando um parabéns desafinado, abraços calorosos, um bolo gelado de coco (seu preferido), a casa cheia de bexigas e uma camisa azul nova de presente. Então, ele renasceu. Se sentiu amado e teve, depois de tantos anos, sua melhor festa de aniversário.  

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