8,80 – A história de um homem feliz

Então existia este homem de origem simples. Ele passou dificuldades na infância, a comida era matematicamente dividida entre ele mais seus sete irmãos, o pai e a mãe. A saca de feijão, de arroz e de açúcar tinha que dar para o mês todo. As vezes sobrava para uma mistura diferente. Cresceu vendo a árdua batalha do pai e da mãe para dar uma vida digna para os filhos e para eles mesmos. O pai trabalhava fora das cinco às cinco. A mãe costurava pra fora, lavava e passava também. O serviço que lhe era pedido, ela fazia. Então, esse homem simples cresceu, trabalhou Sol a Sol e conquistou um pouquinho mais do que seus pais: a casa própria, alimentos diversos na mesa, e um carrinho para ir e vir. Estava feliz assim, não precisava mais do que isso para viver bem. Ele dizia: só preciso de saúde, o resto a gente corre atrás.

E então este homem teve um filho. Um só, filho único. Porque dizia que filho demais dá confusão que essa coisa de ter que dividir tudo dá um pouco de dor de cabeça e queria privá-lo disso. O filho reclamava que não queria comer arroz com feijão de novo, exigia um prato de macarrão. O pai se lembrava de todo sufoco de sua infância e preparava ao garoto o menu desejado. O menino queria o melhor brinquedo, o pai exigia boas notas e lhe dava. Queria um tênis novo, o da moda, o pai lhe dava. Queria o celular da moda, o pai ensinou o fillho a economizar sua mesada até o garoto comprar o telefone que quisesse. O menino chegou nos 16 e o pai sugeriu que trabalhasse.
– Trabalho assim não vou, pai. Tem que ser coisa que pague bem. Quinhentos reais por mês não quero.

Arrumou, então, um que pagava oitocentos. Mas tinha que trabalhar de sábado! E aí, o final você já sabe. Não valia tanto assim. Começou a faculdade, arrumou um estágio pela necessidade de pagar os estudos. Parecia até que a insistência tinha batido à porta do menino. Depois, então, foi promovido, bom salário para recém-formado. Mas ele queria mais. Procurou outro cargo e colocou como meta: comprar um bom carro. Seu pai já estava com certa idade, e o filho pensava que um carro confortável seria suficiente para levar o pai ao médico. Mas o pai só queria mesmo um pouco mais da sua saúde de volta.

Ele, então, comprou o carro. Mas parecia que o carro não lhe bastava. Queria uma casa melhor, com um quarto mais claro, mais arejado, seria bom para a saúde do pai. E ele também queria alguma coisa mais perto do trabalho. Mas o pai só queria que o menino percebesse que não precisava de outro quarto, nem nada.

Então, o menino vasculhava imboliárias atrás do imóvel desejado e se queixava que nenhum estava do seu gosto. Pensou em construir uma casa nova. E enquanto caminhava reclamando até a vaga que tinha parado o novo carro se deparou com uma família de rua que só lhe pedia um prato de comida, um pãozinho que fosse. Eram três crianças e uma mulher só.

Então, o menino se lembrou da história que seu pai lhe contava, sobre a refeição dividida entre os irmãos, e ouviu seu pai dizer: só preciso de saúde, o resto corro atrás. Mas não era seu pai, era a moça da rua que dizia enquanto lhe suplicava um prato de comida. O garoto foi até a padaria mais próxima e comprou o que pode, prometeu ainda voltar com outras coisas que ajudassem aquela família.

O menino chegou em casa e contou ao pai que não queria nada de casa nova nem nada, porque o mais importante ele tinha: saúde e um pai que lhe ensinou a viver de forma simples, porque coisas perecíveis na vida não mantém a felicidade. Afinal de contas, tanto querer uma hora ou outra mostra pra quem quer ver que ter não é assim tão satisfatório.

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