8,80 – O amor no caos

Uma das manias dela era criar histórias para desconhecidos. Perdia horas sentada sozinha em praças de alimentação olhando casais, amigos e papos bem gesticulados no celular, criando diálogos. Era seu passatempo. E ria sozinha desse mundo a parte que ela criava.

Então, neste dia específico choveu, e choveu muito. Dessas chuvas que param a cidade, do trânsito até o metrô, e se deixar as calçadas param também. Ela sentou no terminal de ônibus e esperou a situação amenizar. Nem sentiu o tempo passar quando avistou um casal tão lindo, mas tão distindo.

Ele branco, olhos verdes, um cabelo louro escuro com um corte da moda. Roupas da moda. O que poderia se chamar de hipster. Segurava numa mão um livro aberto, Clube da Luta. Pensou: tem filme, pra que ler este? Ele tinha uma mochila, aparentemente bem nova, com marca de skatista. E headphone entre o pescoço. Resolveu chamá-lo de Leo. Na outra mão ele segurava a mão dela.

Ela negra, cabelos no melhor estilo black power, olhos de jabuticaba e um sorriso que distanciava qualquer estresse causado pela chuva na cidade grande. Ah, como ela era linda! Vestia um vestido longo de algodão, com uma estampa étinica laranja. Usava brincos grandes de madeira marrom escuro. E uma bolsa bem hiponga. Na outra mão ela segurava o celular, provavelmente procurava na internet uma saída para o caos. Resolveu a chamar de Teca, apelido de infância até hoje, nos 29.

Era um casal bonito, de destaque pelas diferenças tão notáveis de estilo. A moça, então, lá parada no terminal, decidiu que eles se conheceram em um evento social. Desses que se tenta propôr algo melhor para comunidades carentes do extremo sul da Zona Sul. Ela se encantou pelos olhos verdes dele. E ele pela habilidade dela em lidar com as pessoas, pelo modo como ela ajeita o cabelo, e como sorri gentil para tudo. Ele não negava, nem na fila do pão, o quanto era apaixonado por ela. Dava pra ver daqui, do caos  no terminal de ônibus.

Daí, é que ela guarda o celular num bolsinho seguro dentro da bolsa. Solta a outra mão da mão dele e o abraça por trás. Sussura algo no ouvido dele, enquanto sorri espuleta. Ele gargalha e se vira de frente pra ela trocando um beijo e depois um longo abraço cúmplice.

O terminal de ônibus tá cheio, o trânsito tá travado e não para de chover, nem de chegar gente de todos os lados. O abraço deles parece não ter fim. E a moça, dona dessa história, vê do seu assento privilegiado e invejado em dias de tumulto toda essa troca sincera de amor. É, Criolo parecia errado, porque existe amor em SP.

A fila do ônibus dele anda. Ele puxa ela pela mão gentilmente, passa ela na sua frente e entram no ônibus. Ainda consegue ver que se sentam um bem do ladinho do outro e ela repousa sua cabeça no ombro dele e se aconchega para a longa viagem por esta cidade cheia de bem querer.

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