8, 80 – Carta de despedida

Querido tio,

Acho um desperdício só ter tomado coragem agora para te escrever. A gente fica deixando pra depois achando que o tempo não passa e veja só onde estamos agora. Hoje sou sua acompanhante no quarto. Me coloquei a disposição para a tia Cleusa poder descansar um pouco. Embora eu tenha certeza de que ela não vai pregar os olhos a noite toda. Mas achei, de qualquer forma que faria bem pra ela uma noite em casa.

Sabe tio, eu já estou aqui há três horas. E fiquei aqui este tempo quase todo pensando na gente, em tudo que você me ensinou. Aposto que você nem calcula o quanto aprendi com você. A primeira coisa que pensei foi: pum é uma coisa engraçada! É nojento, fede, é mal educado, mas você ri sempre que peida, que ouve um peido, que escuta piada de peido. Então, aprendi assim a rir das coisas mais sem graças.

Também aprendi com você o caminho pra faculdade. Lembra que você foi comigo de ônibus umas duas vezes até eu pegar o jeito? Você estava de férias quando minhas aulas começaram e se colocou a disposição nesta aventura. Lembra dos repentistas que entraram no ônibus num destes dias? Você deu uma nota de cinco pra eles e fez o dia da dupla! E foi assim que aprendi com você que a gente não precisa doar muito pra fazer alguém feliz. Basta um sorriso, um ombro amigo, uma coxinha, cinco reais, ou até uma breja.

Depois você me ensinou a dirigir. Foi o único na família que teve coragem de me emprestar o carro. E hoje eu digo: QUE CORAGEM! Tio, eu era uma tragédia no volante! Você nem devia ter me incentivado, devia só ter me dado dinheiro pro busão. Mas ainda bem que o fez, quem o traria no hospital pra fazer quimio?

Me lembro bem que no primeiro dia que trouxe você, há cinco anos, você me disse: “sabe filha, a vida pega a gente no susto pra tudo e não dá pra estar preparado para o que vem… Eu não sei o que será de mim daqui uma semana ou um mês. Mas eu sei que estou satisfeito com o que vivi até aqui, principalmente por ter aprendido tanto com você esses anos todos. São vinte e três, certo?” Eu fiquei em silêncio, pensando o que foi que te ensinei se na verdade foi você que me ensinou tanto? E até agora, nesse momento tão duro dessa doença horrível, eu aprendi com você a batalhar sempre e desistir nunca.

Por fim, meu tio tão amado, eu aprendi com você que uma boa vida não se vive sozinho.

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